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Ópera "Os Contos de Hoffmann"


“Os Contos de Hoffmann” de Jacques Offenbach no Theatro Municipal

16 MAI . 20:00 | 18 e 19 MAI . 17h00
Theatro Municipal do Rio de Janeiro – Praça Floriano s/n° – Centro

Ingressos na bilheteria do Theatro Municipal ou no ingressorapido.com

O Theatro Municipal comemora os 200 anos de Jacques Offenbach encenando a ópera fantástica “Os Contos de Hoffmann”, nova montagem 64 anos depois da última apresentação no Rio de Janeiro, ocorrida em julho de 1955.⠀A ópera terá a direção musical da maestrina Priscila Bonfim, à frente do Coro e Orquestra do TMRJ e um elenco de solistas renomados, com três récitas dias 16, 18 e 19 de maio (esta última, a preços populares).

No formato de concerto cênico, a concepção da obra, assinada pelo diretor artístico do TMRJ, André Heller-Lopes, irá inaugurar uma parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. As artistas Carla Santana, Ana Almeida, Ana Clara Tito e Laís Almaral, que fazem parte do coletivo Trovoa, foram convidadas pela EAV Parque Lage a pintar o painel de 20 metros de comprimento que vai compor a cenografia.


As artistas Ana Almeida, Ana Clara Tito, Carla Santana e Laís Amaral, do coletivo Trovoa, em diálogo com o curador Ulisses Carrilho

UC: ‘Os Contos de Hoffmann’ foi uma ópera criada com uma distância histórica grande, que ainda pautava a mulher como uma musa, objetificada. No enredo, há três delas e esse foi o ponto de partida para sua criação e escolha de cores. Como é o desafio de atuar em uma narrativa sem convocar a figuração ou representações literais por meio da abstração?

Ana Almeida: Penso que desafio não estava em não evocar representações figurativas, mas sim em trabalhar em cima de uma narrativa que é idealizada por um autor que não se pode mais acessar. Pensar paleta a partir de uma história a qual não estamos conectadas e ainda adaptar isso às necessidades técnicas que uma obra destinada a um palco possui, com certeza nos tirou da nossa zona de conforto.

Ana Clara Tito: Falando como alguém que não possui uma prática artística em pintura e que não faz apenas trabalhos abstratos, a pintura abstrata foi uma forma não óbvia, mais subjetiva de mesclar as nossas percepções e opiniões sobre a ópera e a história da ópera em si. Houve uma busca por partir de uma viagem mental, entendo a idealização também por esse viés.

Carla Santana: Utilizar signos visuais para reagir a uma narrativa já existente, compor a partir de entendimentos e percepções próprias. A abstração, para mim, surge como uma linguagem que permite um trabalho produzido coletivamente induzir múltiplas formas de expressividades gráficas, emocionais e subjetivas.

Laís Amaral: Pensar em abstração a partir de uma narrativa já existente nos permite – na realidade, exige –um trabalho atrelado às sensações. Escolher uma paleta de cores como símbolos, que dê conta das especificidades de cada “musa”, por exemplo, é adentrar num imaginário que liga o contexto e tempo da criação da ópera às nossas leituras de realidade, vivências.

UC: Para além da questões narrativas, vocês tiveram o desafio de trabalhar em larga escala — são mais de duzentos metros quadrados de pintura — e com a ideia de espacialização e cena, a partir de elementos em diálogo com figurino, coro, elenco e iluminação, para citar alguns dos elementos neste trabalho. Como se deu esse processo de espacializar a ideia de pintura?

Carla Santana: Por meio da abstração procuramos entender a pintura não como um fato isolado, mas sim, como um diálogo ativo com os acontecimentos da ópera, em franca soma com a recepção e percepção do público. A pintura evoca um plano, um fundo psicológico, uma consciência. Provoca o público por meio de uma composição geral, e ao mesmo tempo, repleta de fragmentos da experiência narrada. Em contato com todos os elementos do espetáculo, cada parte da obra recria uma sensação.

Laís: A pintura é feita coletivamente em escala monumental. Quando se une também a uma obra musical, coletiva, que depende da sintonia dos corpos, se torna uma vibração inteira. Uma espécie de ativação musical sobre a imagem. Um corpo coletivo ativa outro corpo coletivo.

Ana Almeida: Há questões muito técnicas e práticas em relação a esta distribuição espacial. Passam por pensar quais são os pontos visuais privilegiados da tela e quais áreas podem ser vistas apenas por parte da plateia. Foi importante para nós pensar como entender essa hierarquia visual sem cair na armadilha de deixar de lado o equilíbrio do todo, mesmo que em cena, pra quem assiste a ópera, a percepção do todo seja completamente diferente da nossa.

Ana Clara Tito: Muito foi feito por meio da cor. A paleta de cores foi a primeira coisa a ser decidida e passada para o André Heller, justamente para que se pudesse pensar figurino, luz, e outros elementos em relação. As cores também tinham que cumprir certas necessidades técnicas da situação da cena, em termos de saturação e brilho.

UC: Lembro de nossa primeira visita técnica ao Theatro Municipal e os afrescos e ornamentos presentes na arquitetura do espaço, uma grande opulência que nos fez comentar sobre o videoclipe de Beyoncé no Museu do Louvre. Essa relação entre o massivo, o popular e o pop me interessa singularmente. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é das maiores e mais importantes instituições culturais do país e isso apresenta-se numa relação incontornável com a tradição burguesa e a cultura erudita, que até pouco tempo era considerada um contraponto à cultura popular. Como se dá essa relação com essas temporalidades historicamente inscritas no trabalho de vocês? Enxergam mais uma vontade de tomada de espaço ou um rompimento com a tradição?

Ana Almeida: Não houve uma preocupação nossa em tomar espaço ou romper com a tradição. Ao nos convidar para o projeto, a curadoria do Parque Lage e a direção do Theatro Municipal possuíam conhecimento a respeito do nosso trabalho. Criamos de acordo com o que já temos desenvolvido em nossas pesquisas pessoais e também em linguagens que nos interessam. Dado isso, as relações de temporalidade independem do quanto especulamos sobre elas.

Ana Clara Tito: Essa é uma preocupação mais das instituições do que nossa. Quem está preocupado em atualizar uma ópera não somos nós. Nos preocupamos em garantir liberdade durante o processo de criação da obra e em sua relação com nossa produção artística anterior, com nossa visão como grupo.

Carla Santana: Enxergo como uma atualização, recriar por outra óptica temporal. Usar o contemporâneo, um verbo de ligação no espaço-tempo.

UC: Óperas são espetáculos também visuais, contudo partimos da música. E muito embora a arte contemporânea ultrapasse a visualidade, na pintura, convoca-se sobretudo o olho, a retina. Além da peça composta por Offenbach, recentemente trabalharam em colaboração com um videoclipe de Gilberto Gil, grande músico e compositor da música brasileira. Podem tecer algumas palavras sobre a relação entre som e imagem, o ritmo e a pintura? Ao ver imagens do processo de pintura, fica clara uma preocupação com a composição desta imagem.

Carla Santana: Posso fazer uma fricção entre música instrumental e pintura abstrata levando em consideração a carga sensorial e intraduzível. Ambos são a criação de mundos que não são passíveis de serem definidos pela palavra. A música é um espectro cultural pungente na nossa vida social, acaba escoando e influindo no nosso gestual e levada a muitas outras dimensões.

Laís Amaral: Sinto que minha prática na pintura está muito sensível à influência do som. Acredito que esta pode ser uma forma de re-integrar os sentidos, o próprio movimento do corpo remete a uma dança, guiada ou não pela música, existe uma vibração muito forte nessa prática. Da mesma forma a imagem, nesse caso a complexidade da abstração, em seus infinitos caminhos e sensações pode conduzir os ritmos na percepção de quem a vê.

UC: Muito embora sejam um coletivo, são quatro artistas em franca colaboração neste trabalho. Como a poética de cada uma de vocês contribuiu para esta grande composição?

Laís Amaral: Tenho me dedicado bastante à pintura abstrata, nesse percurso venho observando como isso me ativa e como ativa as pessoas, o coletivo. Me interessa particularmente na abstração o movimento de desfazer uma realidade posta por meio da intuição. É claro que existe um acervo, recortes que as especificidades do seu próprio olhar te permitem, escolhas plásticas. Mas o que mais tem me interessado é o poder do gesto. É acessar o sensível e propiciar a ativação das sensibilidades de cada pessoa que vê. Isso pra mim fica muito nítido quando eu pinto por exemplo fenômenos naturais, coisas que sentimos mas não vemos, processos orgânicos. Sobre a experiência de fazer uma pintura abstrata ao lado de três artistas, pra mim foi muito positivo perceber a criação de uma intuição coletiva. Algo que já estávamos cientes de certa forma, mas não nesse nível mais material. Rolou uma agregação de sensibilidades, escolhas, olhares, um desprendimento e também uma confiança muito grande uma na outra. É muito poderoso enxergar isso neste trabalho, as vezes eu desenhava algo e outra pessoa complementava, apagava, as vezes ficava da mesma forma e no final processo fez muito sentido.

Ana Almeida: Ao ter ciência da demanda de uma tela de pintura, eu – que possuo como mídia principal a pintura – fui veementemente contra uma pintura coletiva. Principalmente por não ter referências de obras em pintura que trabalhem a expressão individual feitas por várias mãos. Também por não compreender como poderia se dar a união das linguagens em uma única tela e de forma coesa. Felizmente, eu estava bem equivocada, e na verdade foi muito mais fácil do que eu imaginava. Quando juntas, com a mão na massa, é muito fácil para nós confiarmos nos conhecimentos de pensamento conceitual, cor e composição que cada uma tem, Para mim, foi incrível perceber essa confiança na prática entre nós. Ao mesmo tempo que todas pintavam livremente pela tela, várias vezes nos reuníamos para olhar juntas o conjunto e entender onde faltava detalhamento, quais relações de textura gostaríamos de criar, quais relações de cor não estavam bacanas ainda e precisavam ser trabalhadas, quais desequilíbrios precisavam ser resolvidos, e o que mais fosse necessário alinhar. Na maioria das vezes, o consenso era muito rápido, mesmo que todas estivessem pintando de formas diferentes, com traços diferentes.

Carla Santana: Um interesse particular e comum ao coletivo é de que cada uma de nós possui uma linguagem, pesquisa e expressividades muito plurais. Cada uma se exerce de forma individual, logo, a soma disso é de interesses múltiplos e várias visões de mundo. Antes a pintura abstrata mantinha uma relação limitada aos meus olhos, consegui me jogar e dançar com cores e formas sobre uma dimensão gigante. Foi um esgarçamento poético, prático e de sensibilidade. Lidar com a sua escrita em comunhão com as outras. A minha linha de pesquisa segue em perceber as relações sociais e subjetivas, quando sou-estou um corpo social, quando sou-estou um corpo individual. E cada vez percebo que essa dicotomia vaza e se sobrepõe. Neste trabalho, por exemplo, não me descolo desse raciocínio, porém, adentro a uma forma de expressão plástica que eu não exploraria de forma tão intensa senão pelo coletivo. As mídias que costumo trabalhar são outras, como fotografia, escultura, desenho, em que o corpo protagoniza questionamentos que ele salienta. Foi de extremo impacto alargar as possibilidades de expressividades tanto gestual-corporal, quanto de visualidades-grafia.

Ana Clara Tito: Acredito que esse era um trabalho que habitava em nós há algum tempo. Seja pela vontade em fazer algo nesta escala, seja pelo organizar-se coletivamente, em troca e comunhão. Hoje vejo o quanto estamos mais maduras em nossa relação como grupo. Sempre foi muito importante a potencialização dos nossas pesquisas e trajetórias individuais. Penso que nos unimos como grupo também com esse objetivo, que a priori pode parecer contraditório, de nos fortalecer e fortalecer nossas práticas e interesses particulares, enquanto compartilhávamos muito do que pensávamos ou sabíamos. Toda essa dinâmica, muito especial e singular, se provou capaz de construir conexões e relações profundas. O processo de pintura em si, da construção sensível a oito mãos de um grande painel, foi tão fluido que para mim só pode ser resultado de toda essa relação de troca, confiança e independência que viemos construindo nos últimos dois anos. Caminhávamos pela tela adicionando camadas ao que havia sido feito por outra antes, construindo a partir do pensamento de quem construiu antes e, para mim, até mesmo esse andar pela tela se faz visível no resultado final. Em minhas pesquisas abordo muito estados mentais e emocionais e suas possíveis materializações, seus congelamentos e visualidades, ao mesmo tempo que exploro linhas das relações entre público-privado e coletivo-individual partindo muito do corpo para a construção de trabalhos que mesclam fotografia, performance, instalação. Como venho explorando a escrita da mão com materiais tridimensionais, me lançar na pintura abstrata foi um experiência muito interessante. Ao mesmo tempo trazer as minhas preocupações recorrentes com luz, textura e tridimensionalidade, me desprender das formas pelas quais eu usualmente alcanço certos resultados, me desprender até mesmo desses resultados e buscar outros registros para sensações e movimentos do corpo.

UC: Recentemente, vocês realizaram um chamado coletivo, o “Nacional Trovoa”, que consistia numa série de exposições e programas públicos descentralizados, em várias cidades do Brasil, pensando e agenciando a produção de mulheres negras e não brancas. O racismo institucional no sistema das artes atua de maneira bastante incisiva. Mas uma comunidade de artistas vem pensando ações antirracistas urgentes, que ultrapassam o discurso pacificador da diversidade. Como se dá essa dimensão política feminista e antirracista na produção de vocês?

Ana Almeida: Através da experiência da liberdade, em atuações crítico-práticas.

Artistas do coletivo Trovoa

Detalhe do painel, pintado pela artistas Carla Santana,
Ana Almeida, Ana Clara Tito e Laís Amaral.

Laís Amaral, Carla Santana, Ana Almeida, Ana Clara Tito

As artistas Laís Amaral, Carla Santana,
Ana Almeida, Ana Clara Tito.