Cinema pós-moderno e sociedade de controle: filme-ensaio, ficção maneirista e found footage

Cinema pós-moderno e sociedade de controle: filme-ensaio, ficção maneirista e found footage

Still do filme “Le Toit de la baleine” de Raoul Ruiz.

Professor: Lucas Parente
14 de março a 27 de junho
Terça-feira das 19h às 22h
R$ 280,00/mês

O curso pretende pensar um terceiro regime das imagens cinematográficas que vem se construindo na contemporaneidade, a partir e para além da segmentação entre Imagem-Movimento e Imagem-Tempo proposta pelo filósofo francês Gilles Deleuze.

Pensaremos o cinema, portanto, a partir de três momentos. Em primeiro lugar o cinema clássico, o cinema do movimento tido como o cinema das totalizações narrativas – sejam estas orgânicas, com encadeamentos causais de ações, ou ideais, a partir do choque entre imagens metafóricas que engendram conceitos abstratos. Em segundo lugar, o cinema do tempo, o cinema moderno que em boa parte se baseia na ontologia do index fotográfico, produzindo analogias por contato, como quando uma pegada indica a presença de uma ausência. E finalmente o cinema da informação, o cinema pós-moderno que se caracteriza pela produção de efeitos de desfiguração na composição de espaços-tempos paradoxais. Trata-se de um cinema que cria estruturas sensitivas e/ou cerebrais quase abstratas, pois em permanente des-re-con-figuração.

Gostaríamos, portanto, de pensar este terceiro regime da imagem a partir de três vias abertas no cinema contemporâneo, vias estas que voltam cada vez mais a operar nos dias de hoje: a via do cinema ensaio (de Chris Marker e Harun Farocki, entre outros), a via do cinema de ficção maneirista (de Raoul Ruiz, Peter Greenaway, Hans-Jürgen Syberberg e Shūji Terayama, entre outros) e a via do cinema de arquivo ou found footage (de Peter Tscherkassky, Bill Morrison e Artavazd Pelechian, entre outros).

Estudaremos questões de composição, de montagem, de som e de narrativa em uma série de filmes contemporâneos que serão projetados em sala de aula. O objetivo é o de retraçar a história do cinema a partir tanto da história da arte, quanto da história das novas mídias.

Veremos como a história do cinema e a história da arte estão marcadas por uma série de crises de representação, tanto estéticas quanto políticas. Nos utilizaremos, assim, da história do maneirismo na pintura e do simbolismo na literatura – que surgiram em momentos de crise profunda, e que levaram a uma reformulação radical de certas estruturas de representação – para pensar questões específicas do cinema pós-moderno.

O curso é teórico e visa discutir uma bibliografia formada por textos críticos (como os de Serge Daney e André Bazin), textos de teoria (como os de Lev Manovich e Gilles Deleuze), assim como textos de cineastas (como os de Raoul Ruiz e Artavazd Pelechian). Trataremos também de um corpus formado por filmes pontuais, sobretudo dos anos 70 aos dias de hoje.

PRIMEIRO MÊS – INTRODUÇÃO E CINEMA DE ARQUIVO

Primeira aula – Os três regimes da imagem cinematográfica

Introdução do tema a partir da definição dos três regimes da imagem cinematográfica: o cinema do movimento ideal ou orgânico (clássico), o cinema do tempo e do index fotográfico (moderno) e o cinema do espaço informacional (pós-moderno).

Questões de montagem: as quatro escolas de montagem do cinema clássico; a defesa contra a montagem e o intervalo no cinema moderno europeu; a crise da montagem e a imagem compósita do cinema pós-moderno.

A questão da analogia por semelhança e da analogia por contato. O surgimento da imagem compósita e da analogia do virtual (tema que voltará a ser tratado ao longo do curso).

A definição de três linhas que nos servem para pensar o cinema pós-moderno: o cinema maneirista (ficcional), o cinema de arquivo (experimental) e o cinema ensaio (documental).

Do regime do choque ao regime das intensidades: a montagem topológica, a desfiguração videográfica e o diagrama virtual no cinema pós-moderno.

Segunda aula – Cinema de Arquivo 1: do cinema estrutural ao cinema de arquivo.

Da semiologia da vida de Pasolini ao arquivo como estrutura simbólica. Detrás de uma imagem há outra imagem. O mundo tornado arquivo e a Biblioteca Fantástica de Michel Foucault.

Do cinema estrutural norte-americano ao cinema de arquivo (da abstração moderna à desfiguração pós-moderna). O vitalismo de Jonas Mekas. De Bruce Conner a Craig Baldwin: os restos de Hollywood.

Terceira aula – Cinema de Arquivo 2: “se o cinema está morto, ao menos deixem-me tentar ressuscitá-lo com eletrochoques”.

A questão da ruína no cinema e na arte contemporânea. Duas formas de enxergar a ruína, o traço enquanto presença de uma ausência, e os vetores de forças virtuais em direção a diversos futuros possíveis.

Atacar a película. A decomposição das imagens em Traité de bave et d’éternité de Isidore Isou. Bill Morrison e a deformação da película.

Martin Arnold e a paralisia histérica. O inconsciente tornado visível. Peter Tscherkassky e o choque elétrico no cinema. Uma volta à montagem de atrações ou uma nova forma de pensar a montagem?

Quarta Aula – Cinema de Arquivo 3: topologia e cinema pós-moderno

Artavazd Pelechian: a teoria da montagem topológica no cinema documental. Alain Resnais e Raoul Ruiz: a montagem topológica no cinema de ficção.

A montagem topológica no cinema de arquivo, no cinema ensaio e no cinema maneirista. Montagem topológica como a última forma de montagem antes do compositing.

Do estruturalismo binário (o modelo da grade) ao estruturalismo topológico (o modelo das dobras).

Mashup. Filmes contemporâneos que se utilizam de imagens de arquivo e imagens tomadas da internet, como Maldição Tropical de Luísa Marques e Entretempos de Yuri Firmeza e Fred Benevides.

Proxy Reverso, de Guilherme Peters e Roberto Winter, e o uso de tutoriais no cinema.

SEGUNDO MÊS – CINEMA MANEIRISTA

Quinta Aula – Cinema Maneirista 1: cinema e pintura

Tableaux vivants em Serguei Paradjanov e Bill Viola. Maestà de Andy Guérif. Cinema e iconografia (pinturas e iluminuras medievais e maneiristas).

Os lectosignos, imagens ao mesmo tempo vistas e lidas, à luz da pintura do quattrocento. As Cenas da Paixão de Cristo de Hans Memling.

Para além da montagem: Lev Manovich e a teoria de um cinema de composições.

Os três regimes do cinema relacionados a três concepções do espaço. O espaço da localização, heterogêneo e finito. O espaço da extensão, homogêneo e infinito. O espaço de posicionamento, informativo e relacional.

Cinema e ópera. Werner Schroeter e Hans-Jürgen Syberberg. Hitler: Um Filme da Alemanha. Teatro de marionetes e espaço mental. Autômatos espirituais.

Sexta Aula – Cinema Maneirista 2 : Exercícios Espirituais e cinema.

Imagens e espaços mentais nos Exercícios Espirituais e na Arte da Memória. Os Diálogo dos Mortos e o cinema hermético de Raoul Ruiz, Manoel de Oliveira e Júlio Bressane.

O conceito de Ideia, de imagem artificial e de símbolo no maneirismo e no simbolismo. A ideia tornada imagem. Exemplos antigos e exemplos atuais.

Outros espaços mentais e universos paralelos. Espaços mentais obsedantes no cinema de Christopher Nolan e em Stranger Things, entre outros.

Do hermetismo ao enciclopedismo. Da narrativa paradoxal ao banco de dados. Hipertexto em Peter Greenaway, dos emblemas maneiristas à classificação cientificista.

Sétima Aula – Cinema Maneirista 3 : tendências maneiristas do cinema contemporâneo.

Para além da alegoria: David Cronenberg e o conceito feito carne.

A crise do realismo e a volta do simbolismo no cinema contemporâneo. Cavalo Dinheiro de Pedro Costa. Post Tenebras Lux de Carlos Reygadas.

Holy Motors de Leos Carax e o ciberespaço como figura epistêmica do cinema contemporâneo.

Tendências maneiristas no cinema brasileiro contemporâneo. Doce Amianto e O Estranho Caso de Ezequiel de Guto Parente, entre outros.

Oitava Aula – Cinema e controle na Alemanha e nos Estados Unidos.

Fritz Lang e o automatismo na Alemanha expressionista.

Cinema, música e terrorismo na Alemanha dos anos 70. A Terceira Geração de Fassbinder e o espaço informacional. Filmes coletivos alemães : Alemanha em Outono e Guerra e Paz.

A vigilância de Ferdinand, de Alexander Kluge.

O espaço da transparência, a mesa de informação e a cidade-cérebro em Sidney Lumet, Brian de Palma e John Carpenter.

TERCEIRO MÊS – CINEMA ENSAIO E SOCIEDADE DE CONTROLE

Nona Aula – Cinema Ensaio 1: a representação do irrepresentável.

Primeiras definições do cinema ensaio. A caméra-stylo (câmera-caneta) de Alexandre Astruc. O elogio de Bazin ao cinema ensaio e a concepção cristã do verbo anterior às imagens.

A Segunda Guerra e a questão da representação do irrepresentável. Alain Resnais, Chris Marker e Pier Paolo Pasolini. A questão do horror no cinema ensaio.

Os filmes-ensaio de Pier Paolo Pasolini, uma estrutura dinâmica, entre ideia e concretude. A voz off, entre a voz de Deus e a voz encarnada.

Décima Aula – Cinema Ensaio 2 : do cinema estruturalista francês à imagem diagramática.

O cinema ensaio na França e o pós-estruturalismo. As influências do realismo fantástico, do surrealismo etnográfico e da questão neocolonial

Rive Droite (Godard, Rivette, Rohmer) versus Rive Gauche (Varda, Resnais, Marker). Alguns exemplos do uso do cinema ensaio dentro do cinema de ficção francês (Alain Resnais, Eric Rohmer e Godard).

Maio de 68 e a nova crise da representação. Os anos 70, o surgimento da imagem eletrônica e a plasticidade das imagens: o efeito pause, os efeitos de deformação das imagens, e a inserção do texto na imagem.

As imagens tornadas textos e códigos (os lectosignos – imagens ao mesmo tempo vistas e lidas). Dois marcos do cinema-ensaio : Sans Soleil de Chris Marker e Histoire(s) du Cinéma de Jean-Luc Godard.

Décima Primeira Aula – Cinema Ensaio 3: rumo à pós-internet

Harun Farocki e o cinema do controle. A substituição da Natureza pela Informação. Das sinfonias urbanas ao cinema ensaio.

O enfraquecimento do conceito de cinema ensaio e sua generalização no mundo da arte e do cinema. A resposta através do atual cinema de pós-internet. Os vídeos de Hato Steyerl.

Décima Segunda Aula – Conclusão

Discussão aberta. Visionamento de trabalhos de alunos.

Lucas Parente
Gormado em história pela Universidade Federal Fluminense, mestre em cinema documentário na Universidade Autônoma de Barcelona e em filosofia na Universidade de Vincennes–Saint-Denis (Paris 8). Videasta e pesquisador, escreve textos de ficção e de antropologia visual além de produzir filmes que atravessam diversos gêneros e formatos – vídeo-arte, documentário experimental, cinema fantástico e filme-ensaio –, buscando traçar relações entre a teoria da comunicação, a história do urbanismo e a história das religiões. Tem realizado projetos em parceria com artistas e cineastas (André Parente, Felipe Mourad, Juruna Mallon, Kiluanji Kia Henda, Leonardo Araujo, Lucía Santalices, Luísa Nóbrega e Rodrigo Brum). Dentre seus trabalhos se destacam a Carta Número 1, vencedor do Prêmio Roman Gubern de Filme-Ensaio (2009), a co-edição da revista eletrônica Astro-Lábio (2010), a vídeo-instalação A Bela e a Fera ou Uma Ferida Grande Demais realizada em parceria com André Parente e exposta no MAR (Museu de Arte do Rio, 2014/15), e o média-metragem Satan Satie ou Memórias de um Amnésico, realizado em parceria com Juruna Mallon (2015).

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