ESTOPIM e SEGREDO

ESTOPIM e SEGREDO

SOBRE A EXPOSIÇÃO
ARTISTAS
EDUCATIVO
FICHA TÉCNICA

ESTOPIM E SEGREDO
de 15 de dezembro até 08 de março
QUA – SEG [fecha às terças-feiras] – 10:00 -17:00
uma exposição | cinco cortes
Cavalariças da EAV Parque Lage
Gratuito | Aberto ao público

ESTOPIM E SEGREDO é uma exposição coletiva proposta pela turma de 25 bolsistas do Programa de Formação e Deformação Gratuito – Emergência e Resistência.

abertura
15 e 16 de dezembro 2019

corte 1
18 a 30 de dezembro 2019
ana carolina videira, arthur palhano, juan barbosa e michel masson

corte 2
3 a 13 de janeiro 2020
ana clara tito, gilson andrade, max wíllà morais e pv dias

corte 3
15 a 27 de janeiro 2020
alexandre brasil, fernanda andrade, gabriel martinho, jonas esteves e nathalie nery

corte 4
29 de janeiro a 10 de fevereiro 2020
ana almeida, camilla braga, carla villa-lobos, matheus bastardo e mulambö

corte 5
12 de fevereiro a 2 de março 2020
daniel santiso, lorena pazzanese, sophia pinheiro e viviane laprovita

encerramento
4 a 8 de março 2020

Coordenação
clarissa diniz
gleyce kelly heitor
ulisses carrilho

Participantes
alexandre brasil
ana almeida
ana carolina videira
ana clara tito
arthur palhano
camilla braga
carla villa-lobos
daniel santiso
fernanda andrade
gabriel martinho
gilson andrade
jonas esteves
juan barbosa
lorena pazzanese
matheus bastardo
max wíllà morais
michel masson
mulambö
nathalie nery
pv dias
sophia pinheiro
viviane laprovita


Esta exposição não conclui um curso: ela o integra e, mais além, o prorroga.

Concebida com e pelas pessoas artistas do programa de Formação e Deformação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage – que ao longo de 2019 conviveram intensivamente e, juntas, vivenciaram um curso marcado menos pelo que se ensina e mais por saberes compartilhados num processo de mútua aprendizagem –, Estopim e segredo é uma exposição em cinco cortes.

Como uma anti-conclusão, a mostra não desfecha o curso, mas o mantém em aberto através da invenção de outras formas de habitá-lo. Com uma abertura e um encerramento coletivos entremeados por cinco cortes durante os quais as cavalariças do Parque Lage serão ocupadas por pequenos grupos das artistas do programa, Estopim e segredo estende-se até março de 2020 em estado de contínua criação: desta vez ampliando as escutas e as trocas que fundaram os aprendizados do curso ao convocar, para este espaço-tempo de interlocução, os outros públicos da Escola e do Parque. Estende, assim, aos visitantes e participantes da exposição, algumas das perguntas que a conformaram: o que podemos aprender no exercício de expor? Pode uma exposição ser uma escola?

Prorrogar o curso por meio de uma exposição em cinco cortes – e assim permanecer no Parque Lage – é um gesto político. Assentar, em um dos bairros de maior IDH (índice de desenvolvimento humano) do Rio de Janeiro, pessoas que historicamente apenas transitam por esse território é um desdobramento da campanha EAV para TODES. Organizada pelas integrantes dos cursos de formação de artistas ofertados gratuitamente pela Escola de Artes Visuais, o projeto mobilizou a própria instituição e a sociedade em prol do levantamento de fundos destinados à permanência dessas artistas em formação – ou seja, a garantir transporte e alimentação às participantes. Nesse esforço, endereçou publicamente a incontornável e inadiável necessidade de justiça social e de reparação histórica das assimetrias que constituem o Brasil e, como tal, a arte que aqui se faz e se legitima. Por isso, em seu processo de ocupação e de imantação do Parque Lage, Estopim e segredo reverbera algumas das nevrálgicas perguntas da EAV para TODES: como chegamos até aqui? E, fundamentalmente, como permanecemos neste lugar?

Se esta edição do curso de Formação e Deformação teve como pontos de partida os termos emergência e resistência – tomados de empréstimo da exposição Espaço de Emergência, Espaço de Resistência (EAV, 1978), que documentava os três anos iniciais de atuação da Escola –, decerto os processos experimentados pela coletividade que pedagógica e afetivamente o constituiu em 2019 são a evidência de que persistimos a despeito do período de retrocessos que a cultura e a educação têm enfrentado. Forças que eclodem em estado de urgência e de luta.

É pelo desejo de salvaguardar e estimular tais forças que esta exposição opera por cortes. Como na poda de uma árvore, num parto ou na edição de um filme, os cinco cortes que se seguirão darão a ver – e a brotar – existências prenhes de singularidades. Celebrando o estar e o aprender juntas, o que se forma e se deforma em coletividade, articulamos autorias individuais e coletivas num regime de respeito às diferenças, aos inegociáveis e, por vezes, aos segredos que nos tornam tão estranhas quanto cúmplices.

clarissa diniz, gleyce kelly heitor e ulisses carrilho
coordenadoras e interlocutoras do curso Formação e Deformação – Emergência e Resistência


CORTE 1
18 a 30 de dezembro de 2019

aliança heterogênea formada numa espécie de bolha-tempo protegida. de quantos espaços-tempo somos feitos? corpo é território? quais estratos nos compõem? quando órbitas podem colidir? o que sobra da colisão? é possível escavar sem ferir? quantos universos cabem na ponta de uma agulha? quando um corte é soma? depois do corte, vem a cicatriz? por que se comprometer em lembrar? somos nossas memórias? como catalogar o olhar? a escuta constrói o tempo? qual o tamanho da voz? o que acrescentamos ao espaço? adições somam ou subtraem? é a rotina que nos constrói? como aprender sem destruir vestígios e esvaziar sentidos? qual é a cor do nada? o que cabe no centro? transbordar para dentro? quando a porta de acesso é um limite? e quando tudo era junto? o acaso liberta? quais movimentos nos fazem ausentes? como fisgar o invisível? arte é um risco? o perigo é iminente? por que pactuar com o impossível? a explosão não acontecerá? perguntas fissuram espaços? de tanto cavar, inventar a origem, raiz desse encontro.

ana carolina videira, arthur palhano, juan barbosa e michel masson

CORTE 2
03 a 13 de janeiro de 2020

Iniciamos aqui esse corte como também uma dobra do que podemos chamar de nós. O nós é um contexto a ser reencenado. Nada está fixo. Pedras que se movem. Rosto balaclava. Paredes perfuradas e chão cravado. Brotam chifres de onde não se via.

Interessa mais como incisão e força produzir outros modos de viver. E o que vemos neste lugar faz parte das evidências de um tempo incontornável. Partes do que foi criado espalhadas pelo chão e também suspensas no ar.

Fomos inventades pela ousadia das pessoas que vieram antes de nós, sucessivamente, desde o tempo da violenta Grande Travessia Atlântica. A partir disso, me dedico a criar tempos de vida, volátil, leve e misteriosa, como um reflexo ou energia que se desloca de um ponto a outro. Imaginando o que pode aparecer e o que desaparece. Cosmogonias que foram inicialmente desinventadas para que o Ocidente branco fosse forjado.

Portanto daqui chamamos de um tempo muito aleatório, com certas dificuldades em se fazer um chamado com uma língua límpida, clara e uníssona. Chamo meus grupos com sua língua manchada preta ou dourada. As galinhas estão soltas por aí também. Gente e bicho e terra tem as mesmas decomposições e suas semelhanças familiares.

A verdade como mito. O ponto final como menos importante, como o problema… o problema, a pergunta. Vírgula, reticências, interrogação… alguma exclamação aqui ou alí. Assim apresentamos esse corte, confusão no tempo, espaço para ampliação. Quantas camadas de quantas coisas cabem em uma imagem?

Uma reunião de trabalhos que consiste em trazer também o que foi produzido na Residência Raquel Trindade, a Kambinda, no MUHCAB (Museu Histórico da Cultura Afro Brasileira), entre novembro e dezembro de 2019, sobre um solo de ossos e memórias de pessoas negras na região portuária do Rio de Janeiro.

O que sentimos com os órgãos externos e o que sentimos com os órgãos internos. O material e a vontade. O que dobro com a mão e o que dobro com o fígado.

Visível e invisível ao mesmo tempo.

Desencadeia. Não conclui.

ana clara tito, gilson plano, pv dias e max wíllà morais

PERFORMANCES

SEX. 03 JAN. 14h – LÍNGUA PRETA
max wíllà morais

SÁB. 04 JAN. 15h – OS USOS DA RAIVA | MOMENTO 7
ana clara tito

SEG. 06 JAN. 14h – CORDA DOURADA
max wíllà morais

QUA. 08 JAN. 14h – AÇÃO DE JUSTIÇA OU ACORDAR OS QUE NÃO DORMEM
gilson plano

SEX. 10 JAN. 13h – SUCO PRETO E CARNE DOURADA
max wíllà morais

SEX. 10 JAN. 14h – GUARDA-VOLUMES
gilson plano

SEX. 10 JAN. 16h – “OLHA O PASSARINHO!”
max wíllà morais

CORTE 3
15 a 27 de janeiro de 2020

acabou – não

Acabou. O mundo tem acabado com frequência. Imaginando sobreviver, nos recolhemos aos pedaços. Procuramos, em meio aos escombros, os cacos com os quais remontamos as formas que sinalizam esse fim. Algo está ruindo e a vibração nos desloca à perplexidade.

Há quem faça, apesar do prazo perdido. Há quem acumule dúvidas, há quem encontre o que fazer com a poeira que dorme na tampa do pote. Há quem guarde folhas mortas, há quem faça drenar desenhos de águas paradas. Há quem mate a sede decantando a umidade do ar em horas mortas. Há quem faça máquinas meditarem, há quem encontre poesia em trajetos redundantes. Há quem sonhe com os ouvidos. No silêncio da catástrofe, seres estranhos continuam aparecendo. Em desequilíbrio seguimos.

alexandre brasil, fernanda andrade, gabriel martinho, jonas esteves e nathalie nery