O Estranho – Notícias de um outro lugar

O Estranho – Notícias de um outro lugar

A Boneca. Hans Bellmer, 1933-1936. Centre Pompidou, Musée National D’Art Moderne, Paris

Professor: Guilherme Gutman
06 de março a 26 de junho
Segunda-feira das 19h30 às 21h30
R$ 380,00/mês

“Notícias de lugares suspeitos” ou “notícias da meia-noite” são os vetores do presente curso. Podem ser encontrados no texto de Sigmund Freud Das Unheimliche [O Estranho] publicado em 1919. Freud pesquisou os significados do termo alemão em várias línguas e encontrou em latim as definições locus suspectus e intempesta nocte.

Esse conceito freudiano – que corresponde a uma experiência – é de difícil delineamento. O “estranho” – ou inquietante, sinistro, ominoso, il perturbante, l’inquiétante étrangeté, the uncanny – aparece na fase madura do pensamento de Freud e convoca outras peças teóricas necessárias à sua compreensão, ocupando um lugar excêntrico ao corpus metapsicológico.

A palavra ganhou profícua reverberação no campo da estética, provocando artistas e pensadores de modo geral a vasculharem sua incidência nos processos de criação, obtendo, por vezes, resultados improváveis. Ao longo de quase um século, o conceito se infiltrou na literatura, no cinema, no teatro e nas artes visuais.

O curso pretende explorar como a ideia de “Estranho” pode atravessar exposições de arte.

Conteúdo
O estranho não tem nem condições antecipatórias que garantam o seu surgimento. Ao contrário, a sua eventual aparição é sempre uma experiência desconcertante. Assim, como pode um artista produzir de modo voluntário um trabalho que se esconde, lhe escapa e, de fato, só se presentifica no susto de um achado?

Do mesmo modo, é impossível no trabalho de um curador antecipar o eventual “efeito de inquietude” provocado no espectador, posto que a experiência de estranhamento é tão pouco controlável ou previsível quanto o surgimentos de outras formações do inconscientes, tais como os sonhos. Talvez o máximo que um curador possa seja reunir trabalhos que tratem do tema.

Há obras “estranhas”, como a de Hans Belmmer. Ou como um Miró que, sendo destro, forçando-se a produzir com a mão esquerda, na expectativa de fazer surgir algo que ele não pudesse antecipar.
As investigações exploram, em primeiro lugar, as vanguardas históricas do início do século XX, em especial o Dada e o Surrealismo. Pensemos na escrita automática ou na junção pouco provável de objetos e na maneira como as obras eram expostas.

O curso apresenta também a perspectiva de Georges Didi-Huberman (2010), articulando conceitos psicanalíticos para analisar obras do Minimalismo, em especial Donald Judd, Robert Morris e Tony Smith.

Já a Segunda Bienal de Sevilha (2006-2007), com curadoria de Okwui Enwezor, deslocou os sentidos de Umheimlich para “Unhomely”, colocando em cena tensões presentes na micro e macropolítica, trabalhando com conceitos de proximidade e distância, hospitalidade, xenofobia e amizade.

Objetivo
Investigar como o conceito de “estranho” atravessa o pensamento curatorial.
Estudo de algumas exposições-chave:
- Experiências no Cabaret Voltaire (1917).
- Primeira Feira Dada Internacional (1920).
- Primary Structures: younger american and british sculptures (1966).
- Second Seville Biennal of Contemporary Art (2006-2007).

Dinâmica
Aulas expositivas.
Seminários de alunos.
Conversa com artistas, no Parque Lage ou em seus ateliês, cujo trabalho seja condizente com o tema do curso.

Bibliografia
DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da Imagem. São Paulo: Editora 34, 2013.
______. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010.
ENWEZOR, Okwui. The Unhomely: Phantom Scenes in Global Society. Second Seville Biennal of Contemporary Art, BIACS, 2006.
FOSTER, Hal. O retorno do real. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.
FREUD, Sigmund. O Inquietante (1919). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HOFFMANN, Jens & McSHINE, Kynaston. Other Primary Structures. Nova York: Jewish Museum, Yale, 2014.
LACAN, Jacques. O Livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

Guilherme Gutman
Psicanalista, professor de psicologia da PUC-Rio, curador independente e crítico de arte. Médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, vem desenvolvendo uma investigação e um modelo de pensamento que articulam arte, psicanálise e filosofia. É autor de inúmeros artigos, capítulos de livros e do livro William James & Henry James: filosofia, literatura e vida (Subversos).

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