O que meu corpo sabe – Fotografias em fricção nas coleçōes EAV e Memória Lage

O que meu corpo sabe – Fotografias em fricção nas coleçōes EAV e Memória Lage

Imagem da esquerda: Ayrson Heráclito, Um menino na praia de Toubab Dialaw sinalizando o infinito, 2017 | Imagem da direita: [Memória Lage] Fotografia de gravura de Gastão Manoel Henrique, 1976

Exposição:
O que meu corpo sabe
Fotografias em fricção nas coleçōes EAV Parque Lage e Memória Lage

Curadoria Ulisses Carrilho
ABERTURA
04 fevereiro 2019 . SEG . 9h

04 fevereiro a 05 maio
Gratuito | Aberto ao público
2ª a 5ª feira – 9h às 19h
6ª feira, sábado e domingo – 9h às 17h
Galeria subsolo EAV Parque Lage

A fotografia, como escolas e obras de arte, esquiva-se constantemente de respostas. Qual a natureza da imagem fotográfica? Por que traço essencial ela se distingue da comunidade de imagens? Em “A Câmara Clara”, Roland Barthes trava uma luta não com as imagens, senão com as palavras. Prefere atentar para a experiência se estar diante daquilo que se vê. Pensa menos naquele que as produz, nem mesmo naquele que é representado por ela – mas no observador, com sua história, suas escolhas e suas fragilidades. “A fotografia sempre traz consigo seu referente, ambos atingidos pela mesma imobilidade amorosa ou fúnebre, no âmago do mundo em movimento: estão colados um ao outro”, afirma o autor.

Na busca de um método que pudesse dar conta do que que carregam “em si ou no apontar para eternidade, as fotografias coalham como o leite. Barthes desejava aprofundar-se nas fotografias não como temas, senão como feridas: “vejo, sinto, portanto noto, olho e penso”. Esta mostra toma por empréstimo o investimento geral descrito pelo autor: “ardoroso, é verdade, mas sem acuidade particular”.

Apostamos na justaposição de uma obra de arte da coleção EAV Parque Lage, que utilizam-se da imagem fotográfica, em fricção com fotografias do Memória Lage, arquivo histórico da Escola, fundada em 1975. Tal gesto desafia a própria natureza de ambos os arquivos. Qual a sobrevida de uma imagem fadada a documento? Para o teórico, a fotografia foi relegada culturalmente à ideia de testemunho geral e natural “daquilo que foi”. Em franco diálogo, as imagens sustentam-se numa espécie de cacofonia ou gagueira, fundada em formas e figuras, caras e gestos, cenários e ações. Propositadamente, até mesmo este texto ganha um duplo, uma fotografia que faça as vezes de seu espectro: neste mesmo corredor a instalação “Linha de luz”, de Mauricio Bentes, parte da exposição “Território Ocupado” (1986), com o intuito de instigar uma possibilidade outra de uso do espaço. Mas o que meu corpo sabe da fotografia?

Ulisses Carrilho
Curador EAV Parque Lage