Rio cobra de vidro – Cidade, espaço mental e videocartografia

Rio cobra de vidro – Cidade, espaço mental e videocartografia

Lucas Parente
15 de agosto a 28 de novembro
Terça-feira, 19:00–22:00
R$ 280,00/mês

 
Objetivos
Curso teórico e prático que busca traçar relações entre a teoria do espaço, a história das cidades e a produção de vídeo.

Dinâmica
Primeiro nos debruçaremos sobre diversas teorias do espaço, tanto no mundo das artes, da literatura e do cinema, quanto em filosofia, semiologia e antropologia. Depois, realizaremos trabalhos – que podem ser de vídeo, fotografia, performance, intervenção urbana, dependendo dos alunos – que tratem de espaços bem delimitados da cidade do Rio de Janeiro – seja uma praça, um edifício, uma igreja, um viaduto . . . desenvolvendo na prática a leitura e a construção de diferentes espacialidades – com suas geometrias, seus futuros possíveis, seus quotidianos, conflitos, virtualidades e arquivos.

 
O curso se dividirá em três partes:

PARTE 1 – NUNCA SABE-SE AO CERTO POR ONDE ALGUÉM CAMINHA

Condenado a 20 anos de encarceramento, o arquiteto e ministro do armamento nazista Albert Speer caminhou todos os dias em sua cela e no pequeno jardim que construíra no pátio da prisão de Spandau. Contava minuciosamente os metros e quilômetros que percorria, imaginando estar em uma viagem pelo planeta. Desenhava mapas e lia livros, percorrendo mentalmente primeiro a Europa e depois a América, enquanto exteriormente andava no mesmíssimo jardim. Quando saiu da prisão alemã em 1966, Speer estaria, segundo seu traçado imaginário, em Guadalajara, no México.

Assim, uma pessoa pode estar atualmente em um lugar e virtualmente em outro. Acreditamos que ambos atravessamentos se dão a la vez e o tempo inteiro. Que todo espaço emana de deslocamentos físicos e deslocamentos virtuais. De modo que cada tipo de espaço, ou o que chamaremos de espacialidade, é uma construção que se dá tanto no plano quotidiano do atravessamento, quanto através de uma formulação ideal – seja ela teórica ou espiritual, onírica ou geométrica, contemplativa ou mágica.

Nessa primeira parte do curso trataremos de diversas formas de deslocamento relacionadas com teorias do espaço. De um lado a peregrinação, a caminhada filosófica ou meditativa, a flaneurie, a deambulação surrealista, a deriva situacionista, o delírio ambulatório. De outro a arte da memoria, o exercício espiritual, a hodologia, a psicogeografia, a topografia profunda.

Trata-se sobretudo de uma breve história das relações entre espacialidades (segundo atravessamentos físicos e mentais) e temporalidades (segundo determinadas estruturas narrativas). Acreditamos que este estudo teórico repleto de imagens será de grande valia para quem queira desenvolver ou esteja desenvolvendo projetos (artísticos ou teóricos) que tratem de questões ligadas à espacialidade e ao deslocamento.

 
PARTE 2 – CINEMA CIDADE CIBERESPAÇO E CONTROLE

Na segunda parte do curso trataremos de três fases ou tipos de “cinema e vídeo da cidade”. Primeiro as sinfonias urbanas do cinema de vanguarda. Depois a experiência distendida ou sedada, de uma cidade sem fim nem centro, própria ao cinema moderno. E finalmente a cidade retratada no filme-ensaio e na arte de pós-internet, uma cidade que se confunde com o ciberespaço ou que por ele se destrói.

No século XX, os sistemas de comunicação se acoplaram com os sistemas de transporte. De modo que passamos a operar continuamente um duplo deslocamento tecnológico, o que intensifica ainda mais a sensação de que estamos em dois lugares ao mesmo tempo – ou, talvez, em lugar nenhum. Do mesmo modo, ao atravessar uma cidade, de carro ou a pé, temos experiências que nos remetem a um mundo virtual – à montagem, ao plano-sequência, aos efeitos do vídeo. Com as novas tecnologias digitais, a cidade parece completar sua simbiose com o audiovisual, a propaganda e a vídeo-vigilância formando juntas um sistema de controle integrado.

 
PARTE 3 – RIO COBRA DE VIDRO OU TODAS AS CIDADES A CIDADE

No terceiro mês nos voltaremos para a realização de vídeos (podem também ser fotos, textos, intervenções, performances, mas queremos sobretudo trabalhar com vídeo) que tratem de lugares específicos da cidade do Rio de Janeiro. Um edifício, uma praça, um parque, uma árvore, uma esquina, sempre tratando-se de um espaço delimitado geograficamente.

O Rio de Janeiro é uma cidade cindida, um caso limite que parece conter em si todas as espacialidades, temporalidades e narratividades possíveis. Cidade de muitos santos e muitas quebradas, há um Rio-das-Matas, um Rio-Paris, um Rio-Lagos, um Rio-Lisboa, um Rio-Istambul, um Rio-Nova-Iorque, um Rio-Macao, um Rio-Cali, um Rio-Miami, um Rio-Salvador. Estudando lugares de memória e esquecimento, territórios mais ou menos cristalizados e outros em plena mutação, a ideia é que continuemos discutindo espacialidades possíveis, focando dessa vez em casos mais próximos, para que o curso se torne afinal uma oficina prática que lance a teoria contra o asfalto, ou o asfalto também na teoria.

 
Lucas Parente
Formado em história pela Universidade Federal Fluminense, mestre em cinema documentário na Universidade Autônoma de Barcelona e em filosofia na Universidade de Vincennes–Saint-Denis (Paris 8). Videasta e pesquisador, escreve textos de ficção e de antropologia visual além de produzir filmes que atravessam diversos gêneros e formatos – vídeo-arte, documentário experimental, cinema fantástico e filme-ensaio –, buscando traçar relações entre a teoria da comunicação, a história do urbanismo e a história das religiões. Tem realizado projetos em parceria com artistas e cineastas (André Parente, Felipe Mourad, Juruna Mallon, Kiluanji Kia Henda, Leonardo Araujo, Lucía Santalices, Luísa Nóbrega e Rodrigo Brum). Dentre seus trabalhos se destacam a Carta Número 1, vencedor do Prêmio Roman Gubern de Filme-Ensaio (2009), a co-edição da revista eletrônica Astro-Lábio (2010), a vídeo-instalação A Bela e a Fera ou Uma Ferida Grande Demais realizada em parceria com André Parente e exposta no MAR (Museu de Arte do Rio, 2014/15), e o média-metragem Satan Satie ou Memórias de um Amnésico, realizado em parceria com Juruna Mallon (2015).