EAV Parque Lage

Tom Burr. Hélio-Centricidades: Coda

Tom Burr. Hélio-Centricidades: Coda

Tom Burr, As águas de Março, 2019 (the body in bed), 2019, cobertor, tecido “blackout” e pinos de aço sobre madeira, 183 x 183 x 8 cm [detalhe]. Foto: Ding Musa
SOBRE A EXPOSIÇÃO
EDUCATIVO
FICHA TÉCNICA

Exposição:
Tom Burr
Hélio-Centricidades: Coda

3 novembro a 8 de dezembro 2019
QUA -SEG (fecha apenas às tercas-feiras)
10h-17h
Cavalariças da EAV Parque Lage
Entrada gratuita

Eu esbarro em coisas, eu bato contra possibilidades parcialmente vendado; eu ando sonambulo. Eu murmuro em meu sono e depois me respondo. Eu acordo quando não estou dormindo; eu durmo enquanto estou acordado.
Tom Burr, “sem título”, 2011

A obra nasce de apenas um toque na matéria. Quero que a matéria de que é feita a minha obra permaneça tal como é; o que a transforma em expressão é nada mais que um sopro; sopro interior, de plenitude cósmica. Fora disso não há obra. Basta um toque, nada mais.
Hélio Oiticica, in “Aspiro ao grande labirinto”, 1960

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage tem o prazer de receber a exposição do artista Tom Burr (EUA, 1963) em suas Cavalariças. Nas últimas três décadas, Burr trabalhou com as formas rígidas da arte minimalista e abstrata por meio de uma pesquisa que evoca intimidade, muitas vezes em relação com personalidades específicas – neste caso, Hélio Oiticica (1937-1980). As esculturas, colagens e textos críticos de Tom Burr reconsideram a tradição escultórica ao lidar com os supostos limites entre público e privado, e questionam noções de neutralidade. Ao ocupar um lugar queer, Burr interroga dinâmicas de poder inerentes à cultura, criando objetos e instalações que buscam engajar o corpo do espectador. Cerca de um ano depois da abertura da exposição censurada Queermuseu, Hélio-Centricidades: Coda dá continuidade ao interesse do Parque Lage em uma leitura crítica, emancipatória e insubordinada da história da arte.

Escola de Artes Visuais do Parque Lage


Tom Burr (New Haven, Connecticut – 1963) trabalha com formas baseadas em escultura e colagem, e também com fotografia e escrita. Decorrente do legado das práticas artísticas da arte minimalista, conceitual, feminista e da crítica institucional, a obra de Burr reflete esta história junto às suas próprias coordenadas biográficas para pensar noções de subjetividade e lugar, desejo e estados de controle, e mutantes condições queer.

Desde finais dos anos 1980, Burr realizou exposições em diversos lugares pelo mundo. Depois de estudar na Escola de Artes Visuais e no Programa de Estudos Independentes do Whitney Museum em Nova York, Burr entrou para a American Fine Arts, Co., onde suas exposições nos anos 1990 e no começo dos 2000 ajudaram a iniciar um diálogo sobre ideias expandidas de site-specificity, forma, subjetividades queer e forças políticas atuais. Apresentou exposições individuais na Secession, Viena; no Whitney Museum of American Art, NY; no Museum für Gegenwartskunst, Basel; no Savannah College of Art and Design Museum, Savannah; no FRAC Champagne-Ardenne, Reims, entre outros. A obra de Burr foi incluída no Skulptur Projekte Münster; na Bienal de Istambul; na Bienal do Whitney, entre outras exposições de âmbito de pesquisa internacional. Tom Burr, Anthology: Writings 1991-2015 foi publicado pela Sternberg Press em 2015. Em abril de 2019, Burr expôs pela primeira vez no Brasil no auroras, São Paulo.


Exposições tem a ver com expor-se. Elas expõem espaços, objetos e ideias sob intensa luz para o escrutínio do olhar do público. Artistas têm exposição, atenção garantida, por meio do jogo de se fazer uma exposição, enquanto também atuam em uma rede de expectativa e desejo: mostrar, conectar, revelar, expor. Artistas são expostos. Eu sou exposto. E tenho fantasias sobre me expor para você enquanto seguro um espelho para expor você de volta.

Hélio-Centricidades: Coda foi feita para ser um encontro amoroso entre o espaço expositivo, Hélio Oiticica e eu. Por meio de modos de influência e mimetismo, e de perder-se um no outro – outro objeto, outro corpo, outro cérebro –, eu queria colidir parcialmente aquilo que faço com o que Oiticica fez, borrando assim as linhas entre nossos eus e expondo nossas afinidades e distâncias.

No auroras, em São Paulo, onde o projeto começou, trabalhei e dormi durante o mês de março em quartos que ficavam logo acima do espaço expositivo. Como antes aquele era um espaço doméstico, há ali uma intimidade persistente que marcou o trabalho. Há também uma rigidez de contenção e proteção, e uma ansiedade específica do dentro versus o fora do embrulho da casa, que também afetou meus pensamentos.

No Parque Lage, também existe um legado de propriedade privada, mas há ainda uma fluidez arquitetônica no local, e me vi considerando as várias salas e corredores formados por passagens e aberturas complexas na paisagem da floresta do parque adjacente – potenciais espaços para mostrar, conectar, revelar, expor – junto aos espaços institucionais da escola. Vaguei pelos dois, e imaginei como os corpos se transformam de um a outro, em quem é possível transformar-se, e quais exposições específicas estão em jogo.

Tom Burr