Conhecimento Emergente

ARTES E VIDAS INDÍGENAS: RAÍZES COSMOPOÉTICAS, ROTAS CONTEMPORÂNEAS

Sobre o curso

Quem é indígena e quem define a indianidade no Brasil? A partir dessa questão central, o curso propõe uma introdução crítica às artes indígenas no Brasil, compreendendo o oceano Atlântico, o território e a história colonial como espaços de gestação de identidades, conflitos e re-existências. Segundo dados do Censo do IBGE de 2010, existem cerca de 896,9 mil indígenas no país, pertencentes a mais de 300 povos falantes de centenas de línguas distintas, presentes tanto em territórios tradicionais quanto em áreas urbanas e grandes metrópoles.

O curso parte do reconhecimento de que, para além do mito romântico que associa os povos indígenas exclusivamente à natureza, há uma produção cultural, artística e política intensa a ser apresentada e discutida nas aulas.  A relação com a história e com o Estado; as filosofias indígenas do xamanismo, da antropofagia e do perspectivismo; os envolvimentos dos povos indígenas com as artes visuais e os museus; as etnogêneses e as retomadas contemporâneas; e o pensamento indígena sobre globalização e as questões ambientais recentes terão destaque nos encontros.

Esse curso, portanto, pretende apresentar e analisar esse amplo panorama de temas e questões para interessados na produção artística ameríndia histórica analisada pelos historiadores e antropólogos, mas também aquela produzida e afirmada pelos artistas
indígenas do país na atualidade.


imagem: Mulheres que Dançam, da série “Corpos que Resistem ao Estado de Esquecimento” (2023), de Maria Antônia de Oliveira Miranda, Antônio Hilário Aguilera Urquiza e Kuñangue Aty Guasu.

O que você vai aprender:

História dos povos indígenas antes e depois do Brasil. Imaginários e representações europeias sobre os povos indígenas na colonização e no Império, das imagens dos viajantes à pintura oitocentista da Academia Imperial de Belas Artes. O pensamento modernista-antropofágico e tropicalista sobre as culturas indígenas no país. A produção visual indígena identificada pelos primeiros antropólogos brasileiros. Os grafismos indígenas analisados por Lux Vidal, as miçangas pesquisadas por Els Lagrou, a etno-musicologia indígena descoberta por Anthony Seeger, as formas expressivas-xamânicas investigadas por Eduardo Viveiros de Castro, Carlos Fausto, dentre outros importantes antropólogos contemporâneos. O estatuto do corpo, dos sonhos, da guerra, das festas, dos mitos e dos rituais entre os povos indígenas no Brasil. O milenarismo e a busca da Terra sem Mal. As antropofagias guerreiras e funerárias. A arte como cura das máscaras Apaapatai pesquisadas por Artistóteles Barcellos Neto, os cantos e duplos Marubo analisados por Pedro Cesarino, os enfeites corporais Mamaindê-Nambiquara descritos por Joanna Miller. A participação dos indígenas em festivais de cinema brasileiros e em Cannes. A presença de artistas indígenas nas mostras de arte contemporânea no Brasil e no Exterior. A trajetória de Jaider Esbell, Denilson Baniwa e Daiara Tukano, dentre outros artistas recentes, investigadas por Ilana Goldstein e Nina Vincent. O ativismo ambiental dos povos indígenas e sua interface com as artes contemporâneas brasileiras a partir da obra de Ailton Krenak, Raoni e Davi Kopenawa. O surgimento de museus indígenas no Brasil e no Exterior com curadoria nativa, como os museus Maguta [Tukano] e o National Museum of the American Indian. Os dilemas e impasses da patrimonização das culturas indígenas, e da circulação de artes ancestrais invisíveis e xamânicas no mundo capitalista branco-ocidental.

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Conhecimento Emergente

ARTES E VIDAS INDÍGENAS: RAÍZES COSMOPOÉTICAS, ROTAS CONTEMPORÂNEAS

R$ 650,00 (parcela única)

RECURSOS

As aulas serão híbridas, presenciais e online. Para a modalidade online é necessário computador, notebook ou celular com internet que assegure a qualidade da transmissão, do material visual disponibilizado e, também, uso de câmera e som que permita a participação nas aulas e nos debates.

Este curso é indicado para:

Indicado para quaisquer pessoas interessadas em povos indígenas, suas culturas, tradições e produções artísticas. E também em seus dilemas históricos e políticos analisados a partir das relações entre os campos das artes visuais, da história e das ciências sociais. 

Dinâmica:

As aulas serão expositivas e dialógicas, baseadas em repertórios teóricos, artísticos e audiovisuais sugeridos. Serão indicados textos, filmes, músicas e exposições, com estímulo à escrita de textos ensaísticos, poéticos ou à elaboração de propostas artísticas e performativas a partir dos conteúdos discutidos. Havendo exposições com temática correlatas na cidade do Rio de Janeiro, será realizada visita de campo com os participantes, em data a ser combinada.

Aula 1. Visões do Paraíso: Tempos do Equinócio e Pindorama antes do Brasil
Aula 2. Vidas Indígenas do/no Brasil: Entre o Estado, a Guerra e a “Diferonça”
Aula 3. Fricções/Ficções Indígenas: Contato, Etnicidade e Territorialização
Aula 4. Meu Corpo é Outro: Xamanismos, Antropofagias e Perspectivismo
Aula 5. Outros Mundos: Artes e Cosmopolíticas dos Sonhos
Aula 6. Raízes Cosmopoéticas: Ancestralidade, Rituais e Animismo
Aula 7. Rotas Contemporâneas: Artes Indígenas e do Vídeo em Bienais e Museus Indígenas
Aula 8. Indígenas e o Fim do Mundo: Antropoceno, Agenda Ambiental e Devir-Índio

  • Ministrado por:

    Leonardo Bertolossi

    Graduado em História e mestre em Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ, pesquisando políticas e poéticas de representação museais e artes indígenas no National Museum of the American, do Smithsonian Institute. No doutorado em Antropologia pela FFLCH/USP pesquisou as interseções entre o circuito e o mercado de arte nos anos 80 e 90 no país. Realizou estágio pós-doutoral em Imagem e Cultura no PPGAV/UFRJ, tendo pesquisado as relações entre arte, magia, antropofagia e fetiche.

    Nos últimos anos lecionou várias disciplinas, dentre elas História da Arte, Arte e Cultura Brasileira, e Antropologia da Arte e do Design, como professor do curso de Artes Visuais da Univeritas/Uninassau, da EBA/UFRJ, tendo lecionado também Antropologia Cultural nos cursos de Sociologia, Geografia e Filosofia da UERJ e da UFF. Realizou diversos cursos livres de Arte e Antropologia na EAV/Parque Lage, na Casa do Saber Rio, no Centro Cultural da Justiça Federal, na Casa França Brasil, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, na Escola Sem Sítio e no Centro de Preservação Cultural Casa de Dona Yayá na USP. Realizou a curadoria da mostra Uterutopias no espaço independente A MESA e mais recentemente tem se interessado pela relação entre as artes visuais, a antropologia e a psicanálise, realizando formação psicanalítica no Corpo Freudiano do Rio. Atualmente trabalha como professor substituto de Arte e Antropologia no IART/UERJ.

Referências

ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

AMOROSO, Marta; SANTOS, Gilton Mendes dos (orgs.). Paisagens Ameríndias: Lugares, Circuitos e Modos de Vida na Amazônia. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.

BARCELOS NETO, Aristóteles. Apapaatai: Rituais de Máscaras no Alto Xingu. São Paulo: Edusp, 2008.

BERTOLOSSI, Leonardo. Artes do Corpo, Transformação e Copyright: Tradução, Maestria Autoria entre Ameríndios. In: Poéticas Cosmopolíticas: Pós-Cadernos 03 [Coletâneas]. Rio de Janeiro: Editora Circuito 2019. pp. 10-35.

BESSA FREIRE, José Ribamar. A Descoberta dos Museus pelos Índios. In: ABREU, Regina;

CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e Patrimônio: Ensaios Contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. p. 265–278.

CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de Dormir: Uma Pesquisa Etnográfica. São Paulo: Global Editora, 2013.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Índios no Brasil: História, Direitos e Cidadania. São Paulo: Claro Enigma, 2012.

CESARINO, Pedro. Oniska: Poética do Xamanismo na Amazônia. São Paulo: Perspectiva, 2011.

DANOWSKI, Débora; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há Mundo por Vir? Ensaio sobre os Medos e os Fins. São Paulo: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental, 2014.

DORRICO, Trudruá. Tempo de Retomada. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.

FAUSTO, Carlos. Os Índios Antes do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

GOLDSTEIN, Ilana. Da “Representação das Sobras” à “Reantropofagia”: Povos Indígenas e Arte Contemporânea no Brasil. In: MODOS: Revista de História da Arte. Vol. 3, No. 3, 2019, pp. 68-96.

GORDON, Cesar. Economia Selvagem: Ritual e Mercadoria entre os Índios Xikrin-Mebêngôkre. São Paulo: Editora Unesp; ISA; NuTI, 2006.

GRAHAM, Laura. Performance de Sonhos: Discursos de Imortalidade Xavante. São Paulo: Edusp, 2018.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

LAGROU, Els. Arte Indígena no Brasil: Agência, Alteridade e Relação. Belo Horizonte: C/Arte, 2009.

LIMA, Antônio Carlos de Souza. Participação Indígena em Eleições: Desafios Técnicos e Políticos no Processo Eleitoral Brasileiro. Brasília/Rio de Janeiro: TSE/LACED, 2022.

LIMA, Tânia Stolze. Um Peixe Olhou para Mim: O Povo Yudjá e a Perspectiva. São Paulo: UNESP/ISA/NuTI, 2005.

LIMULJA, Hanna. O Desejo dos Outros: Uma Etnografia dos Sonhos Yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

METYKTIRE, Raoni. Memórias do Cacique. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

MILLER, Joanna. As Coisas: Os Enfeites Corporais e a Noção de Pessoa entre os Mamaindê (Nambiquara). Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2018.

MONTEIRO, John. Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

MONTEIRO, Paula. Deus na Aldeia: Missionários, Índios e Mediação Cultural. São Paulo: Globo, 2006.

NEVES, Eduardo. Sob os Tempos do Equinócio: Oito Mil Anos de História na Amazônia Central. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

OLIVEIRA, João Pacheco de. O Nascimento do Brasil e outros Ensaios: “Pacificação”, Regime Tutelar e Formação de Alteridades. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Festa e Guerra: Movimentos Coletivos dos Povos Nativos da América. São Paulo: Editora Elefante, 2025.

RIBEIRO, Darcy. Os Índios e a Civilização: A Integração das Populações Indígenas no Brasil Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

RIBEIRO, Sidarta. Sonho Manifesto: Dez Exercícios Urgentes de Otimismo Apocalíptico. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

SEEGER, Anthony. Por Que cantam os Kĩsêdjê: Uma Antropologia Musical de um Povo Amazônico. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

SZTUTMAN, Renato. O Profeta e o Principal: A Ação Política Ameríndia e seus Personagens. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2012.

VIDAL, Lux (org.). Grafismo Indígena: Estudos de Antropologia Estética. São Paulo: Studio Nobel/USP/Fapesp, 1992.

VILAÇA, Aparecida. Comendo como Gente: Formas do Canibalismo Wari’ (Pakaa Nova). Rio de Janeiro: Editora UFRJ/ANPOCS, 1992.

VINCENT, Nina. Paris, Maori: O Museu e seus Outros – Curadoria Nativa no Quai Branly. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2015.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os Involuntários da Pátria: Ensaios de Antropologia II. São Paulo: N-1 Edições, 2025.

VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios: Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

TRANSFERIR CONHECIMENTO. NOSSA MISSÃO.

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